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Como analisar um poema

 
Por Ketlyn Araujo. Atualizado: 28 outubro 2020
Como analisar um poema

Um poema é uma obra literária comumente escrita em verso ou em prosa poética. Se você precisa analisar um poema que está lendo pela primeira vez, te recomendamos que você o leia com o coração, as emoções e a alma, mas não com a razão. Isso vai servir para que você pense sobre a poesia, já que ela é um texto que busca transmitir emoções e imagens ao leitor.

Por outro lado, a análise de um poema levando em consideração sua estrutura, precisa ser feita mediante a razão. Para isso, você terá que destrinchar a poesia, analisá-la por partes e interpretá-la. Além disso, é importante falar sobre aspectos relevantes da vida do autor, o contexto histórico no qual a obra está inserida e seu estilo lírico. Assim, você terá sucesso na hora de analisar um poema, seja para um trabalho acadêmico ou apenas por gostar de determinado tema.

Mas, como sabemos que analisar poesia pode não ser algo tão simples assim, no umCOMO queremos compartilhar com você todas as dicas necessárias para que você saiba como analisar um poema em 6 passos de forma fácil e interessante.

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Como analisar um poema metricamente

Para analisar um poema, devemos dividi-lo em partes e começar a análise da menor para a maior. Os poemas são formados por estrofes, e as estrofes, por versos. Uma vez sabendo como analisar os versos de um poema, podemos continuar com a análise das estrofes.

Para isso, a primeira coisa que você deve fazer é realizar uma análise métrica do poema, que consiste basicamente em analisar a quantidade de sílabas contidas em cada verso, e como elas se comportam no poema. Ainda que a análise métrica do poema se baseie na ortografia, ela também tem influência na sonoridade do verso.

Há dois tipos de sílabas que nós podemos encontrar nos poemas. As sílabas fonológicas são a unidade do idioma que expressa um ou mais sons agrupados em um som de maior sonoridade. As sílabas métricas, por sua vez, são entoadas em uma única voz e estão sempre formadas por um som vocálico de, no máximo, 3 vogais.

Agora, quando analisamos um poema, muitas vezes acontece das sílabas métricas e fonológicas coincidirem, mas não é sempre assim. Com o objetivo de manter a mesma quantidade de sons e a sonoridade, são usadas as licenças poéticas.

As licenças poéticas são recursos usados para que a mesma quantidade de sílabas em um verso seja usada, sem que as normas de linguagem importem. Cada licença tem uma série de regras, exceções e detalhes importantes que vão te ajudar a analisar o verso. Estes são os diferentes tipos de licença poética que você poderá encontrar em um poema para fazer a análise métrica:

Licenças que são produzidas pelo encontro de vogais em palavras diferentes

Sinalefa: É uma figura que pode recortar a quantidade de sílabas em um verso, seguindo regras parecidas com as dos ditongos e tritongos, para criar uma métrica específica em cada linha.

Por meio da sinalefa, uma sílaba é formada a partir de duas ou mais vogais pertencentes a palavras distintas, ou seja, a última sílaba de uma palavra se une à primeira da seguinte, e elas são pronunciadas como se fossem uma única sílaba. Pode ocorrer, inclusive, com um sinal de pontuação entre elas. Existem vários tipos de sinalefa: sinalefa de duas vogais e sinalefa de três vogais. A seguir, veja um exemplo dessa licença poética:

Eu era seu guia

Eu/e/ra/seu/gui/a

Dialefa ou hiato: É outro recurso poético que serve para evitar cair em sinalefa. O hiato surge quando as sílabas não possuem as condições para serem unidas, porque são contadas como duas sílabas. Isso acontece se a primeira sílaba da segunda palavra começa com uma vogal tônica, ou seja, rompe o ritmo da palavra anterior. Da mesma forma, o hiato ocorre se, por uma questão estilística, o autor de um poema decide que, para ter as medidas exatas de um verso, ele precisa evitar a sinalefa.

Licenças que ocorrem no interior das palavras

Trema ou diérese: é uma licença poética que surge quando o ditongo é quebrado para converter uma única sílaba em duas. Isso causa uma alteração na pronúncia normal de uma palavra. É comum encontrar essa figura sinalizada por meio do sinal de trema (dois pontos) na vogal fechada do ditongo que se quebra, ou seja, está indicada na vogal mais fraca (ï, ü) afetada.

Sinérese: essa licença poética permite unir as vogais de um hiato, criando assim um ditongo artificial com o objetivo de reduzir, em uma, as sílabas do verso. Em palavras mais simples, é quando duas vogais fortes de duas sílabas fonológicas diferentes se juntam. Exemplo:

A aeronave passou o dia inteiro voando no céu parisiense na esperança de pousar, mas era impossível.

Sinafia: é a união da vogal final de um verso com a vogal inicial do próximo. Foi muito utilizada no século XV e foi recuperada durante o romantismo.

Licenças que são produzidas por conta do acento de uma palavra

Lei do acento final: consiste em somar ou subtrair sílabas métricas ao total do verso, dependendo da sílaba tônica da última palavra. Nesse sentido:

  • Se a palavra é aguda, soma-se uma sílaba (oxítona).
  • Se é esdrúxula, uma sílaba é subtraída (proparoxítona).
  • Se estivermos falando sobre uma palavra grave, ela se mantém igual (paroxítona).
  • Se a palavra é sobresdrúxula, também deve-se subtrair uma sílaba, como na esdrúxula (superproparoxítona).
Como analisar um poema - Como analisar um poema metricamente

Como analisar um poema segundo as rimas

Uma rima é um fenômeno acústico e não gramatical, que se encontra entre dois sons, situados a partir da última vogal acentuada.

As rimas são divididas em consoantes e assonantes. As rimas consonantais são formadas a partir da última vogal tônica e todos os sons são repetidos. As rimas de assonância surgem da última vogal tônica, todos os sons vocálicos são repetidos, mas se tritongos ou ditongos forem encontrados na rima, a vogal e a semivogal são dispensadas.

O esquema de rima é regido pelos sons, derivados do padrão que forma as rimas finais nos versos. Ou seja, refere-se à ordem de certas palavras que rimam e ao som que elas produzem. Esse tipo de análise de poema estuda a velocidade e o fluxo do poema, além de facilitar a transmissão da ideia do poeta.

Os poetas empregam diferentes esquemas de rima em seus poemas. Nesses esquemas, as letras são usadas para marcar as linhas onde isso acontece.

Dessa forma, ao analisar o esquema, surgem diferentes disposições de rimas: contínuas, alternadas, emparelhadas, interpoladas, encadeadas, mistas, etc.

No entanto, a melhor maneira de entender um esquema de rima é por meio da observação e da prática. Com isso em mente, veja o seguinte exemplo de como analisar as rimas de um poema:

De tudo, ao meu amor serei atento (a)

Antes, e com tal zelo, e sempre, e tanto (b)

Que mesmo em face do maior encanto (b)

Dele se encante mais meu pensamento. (12a)

Essa rima é abba, ou seja, corresponde ao esquema ABBA. Na prática é assim: as rimas dos versos 1 e 4 são representadas pela letra a, com palavras que rimam em versos alternados. Já as rimas das linhas 2 e 3 são representadas pela letra b, e as rimas ocorrem em uma sequência de versos. Antes da letra "a" ou "b", você também pode numerar as sílabas de cada verso, como no exemplo do último, 12a.

Como analisar um poema - Como analisar um poema segundo as rimas

Como analisar os versos de um poema

Assim que você souber como fazer a análise métrica e o esquema de rimas do poema, já possui o esqueleto dele. Agora, falta apenas reconhecer, empregando os dados que já possui, os tipos de versos que compõem o poema em análise. Depois, você precisará fazer o mesmo com as estrofes.

Porém, afinal, o que é um verso? Um verso é a menor divisão estruturada que existe em um poema. Eles são compostos por frases curtas, que são escritas em cada linha. Os versos funcionam sozinhos, junto com outros ou em um conjunto de outros poemas. Assim, formam estrofes que, em grupo, constituem a estrutura do poema. Veja como analisar um poema reconhecendo os tipos de versos que existem, a seguir:

Versos de acordo com a quantidade de sílabas

  • Simples: Eles são compostos de um único versículo. Cada verso simples sempre tem um acento na penúltima sílaba (acento estrofe). O verso simples geralmente tem 11 sílabas ou menos.
  • Compostos: Eles são compostos por dois versos simples (a partir de 12 sílabas). Nos versos compostos, um acento aparece na penúltima sílaba de cada hemistíquio (acento estrofe). Um verso simples é de arte maior.

Nesse sentido, é importante dizer algo sobre os acentos da estrofe: todos os acentos de cada linha que coincidem com o sinal ímpar ou par do acento da estrofe são acentos rítmicos, e aqueles que não coincidem são extrarítmicos. Além disso, se uma sílaba com um acento rítmico estiver próxima a outra sílaba acentuada, a sílaba acentuada é chamada de acento antirítmico.

Dito isso, vamos ver outra classificação dos versos, de acordo com o número de sílabas:

  • Versos de arte menor (1-8 sílabas). Dentre este grupo estão os bissílabos (2 sílabas), trissílabos (3 sílabas), tetrassílabos (4 sílabas), pentassílabos (5 sílabas), hexassílabos (6 sílabas), heptassílabos (7 sílabas) e octossílabos (8 sílabas).
  • Versos de arte maior (9 a 11 sílabas). Nesse conjunto estão os versos eneassílabos (9 sílabas), decassílabos (10 sílabas), hendecassílabos (11 sílabas), dodecassílabos (12 sílabas), tridecassílabos (13 sílabas), alexandrinos (14 sílabas), pentassílabos (15 sílabas) e hexadecassílabos (16 sílabas).

Versos segundo as rimas

  • Verso rimado: aquele cuja palavra final rima com a de outro verso.
  • Verso solto: aquele que não apresenta rima com nenhum outro verso, mas aparece em uma composição rodeado por rimas.
  • Verso branco: aquele que não apresenta rima e aparece em uma composição que não conta com versos totalmente rimados.

Versos segundo a acentuação

  • Versos trocáicos: quando o acento das palavras cai nas sílabas ímpares.
  • Versos iâmbicos: quando o acento das palavras cai nas sílabas pares.
  • Versos mistos: quando as duas cadências anteriores são misturadas.

Como analisar as estrofes de um poema

Os poemas são formados por estrofes, a divisão do meio de um poema. Tradicionalmente, uma estrofe está estruturada por um grupo de versos com a mesma medida, os quais possuem rima e ritmo.

Porém, na poesia contemporânea, as estrofes não são regidas por regras tão rígidas assim (já não são empregados o mesmo número de versos, nem medidas, nem rimas). Por isso, a forma mais evidente de reconhecer um poeta atual se baseia, sobretudo, na estrutura separada por um espaço. Para continuar com a análise do poema, veja a seguir os principais tipos de estrofes que existem para cada número de verso (há muitas outras):

  • Verso único: não é considerado parte de um poema, mas sua forma se adapta a diferentes usos (lemas, motes, títulos, provérbios, etc.) O verso único possui 8 sílabas ou mais.
  • Dístico: o dístico é composto por dois versos (arte menor, maior ou uma composição de ambos). Eles podem ser consoantes ou assonâncias rimadas, mas o primeiro é mais comum.
  • Terceto: é formado por três versos de arte principal. O primeiro e o terceiro verso têm rima consoante, e o segundo costuma ficar livre. Outra estrofe de 3 versos é a solea.
  • Quarteto: são quatro versos de arte principal que rimam de forma consonantal, o primeiro com o quarto e o segundo com o terceiro. Outras estrofes de quatro versos incluem a redondilha, a quadra, o pequeno dístico e a faixa.
  • Quinteto: é formado por cinco versos de arte principal com rima consonantal.
  • Sestina: esse tipo de estrofe é formado por seis versos de arte principal que não possuem rima fixa.
    Outras estrofes de seis versos são a sextila e o dístico de pé quebrado.
  • Verso de arte maior: São estrofes de 8 versos de doze sílabas com rima consonantal e esquema ABBAACCA. Outras estrofes de oito versos incluem a cotava real, a oitava italiana e a octavila.
  • Décima ou espinélio: estrofes de 10 versos octossílabos com rima consonantal.
  • Soneto: estrofe de 10 versos com uma rima em arte principal e com dois quartetos hendecassílabos e dois tercetos. Outras estrofes de 10 versos incluem a copla real e o soneto.
  • Romance: estrofe sem número fixo de versos, geralmente oito sílabas. Sua rima é assonante aos pares, e os ímpares ficam livres.
  • Silva: são estrofes com uma quantidade indefinida de versos (hendecassílabos e heptassílabos). Esse tipo de poema não tem padrão, tudo depende do gosto do poeta.
  • Outros tipos de estrofes são: canto fúnebre, carol, canção do trovador, rodel, silva, cantinela, verso único, silva sem rima, etc.

Como analisar um poema segundo os elementos internos

Já analisamos os componentes externos do poema: métrica de versos, esquema de rimas, tipos de verso e tipos de estrofe. Porém, ainda falta analisarmos a parte interna do poema, para a qual você terá de levar em conta os seguintes aspectos:

  • Movimento lírico ou tema: expressa o contexto, cenários, pensamentos e emoções que despertam a sensibilidade do poeta.
  • Humor: é a atitude emocional que o poeta manifesta: alegria, tristeza, raiva, indignação, terror, impotência, coragem, esperança, etc.
  • Objeto lírico: É sobre a pessoa, entidade ou circunstância que causa os sentimentos na voz poética. Normalmente, refere-se a um ser ou objeto.
  • Locutor lírico: consiste na voz do poema, emitida por um narrador (seja o autor ou outro personagem). Essa voz transmite sentimentos e emoções de um ponto de vista intrínseco ao trabalho.
  • Atitude lírica: baseia-se na forma de expressar ideias dentro de um poema para descrever uma realidade. Nesse sentido, há uma atitude enunciativa (o locutor lírico refere-se na primeira ou terceira pessoa a uma situação externa a si mesmo); apostrófica (aponta para uma segunda pessoa que pode ou não coincidir com o objeto lírico) e carmim (o locutor lírico vem do eu interior, geralmente está na primeira pessoa e com uma perspectiva subjetiva marcada).

Esses elementos vão servir para que você também estude outros tipos de obras literárias. Descubra aqui como analisar um texto literário.

Outros elementos de um poema

Na poesia, como acontece com outros gêneros literários, os poetas buscam embelezar suas obras fazendo uso de figuras literárias. Reconhecer esses recursos em um poema vai servir para que possamos entender mais sobre o estilo do poeta e aquilo que ele deseja transmitir para o leitor. Pensando nisso, a seguir você poderá observar os recursos mais empregados para que você os reconheça quando for analisar um poema:

  • Recursos fônicos: aliteração, onomatopeia, etc.
  • Recursos morfossintáticos: epíteto, sinonímia, assíndeto, polissíndeto, elipse, anáfora, paralelismo, hipérbato, etc.
  • Recursos semânticos: paradoxo, antítese, ironia, símile, hipérbole, metáfora, metonímia, sinédoque, etc.
  • Recursos baseados em similaridade: metáfora, símile, metáfora impura, etc.

No nosso artigo quais são as principais figuras literárias você vai encontrar mais informações sobre os recursos estilísticos e em que consiste cada um deles.

Além disso, ao analisar um poema você também terá de identificar o gênero ao qual ele pertence. Alguns dos mais populares são: terceto, soneto, quadra, lira, acrósticos, caligrama, ode, écloga, elegia, epigrama, epitáfio, hino, haicai, greguerias, refrão e prosa poética.

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